A
triste história de Maguari
Gabriel
Both Borella
Foi no início do século XIX
que a pequena Maguari, enteada da nobre família Lemos, teve sua vida
transformada. A mocinha que vivia perambulando pelas vielas de Belém do Pará queria
conhecer a Feira Livre de Vero Peso, que tanto ouvia falar pelas bocas
desocupadas que ocupavam as ruas da capital paraense.
Assim que ouviu de um
devoluto morador que lá aconteceria uma feira de bonecas de porcelana, Maguari,
do alto da experiência de seus oito anos de idade, decidiu que iria até a local,
à noite, escondida de seus pais, para apreciar a extrema beleza das bonequinhas
que lá estariam expostas.
Tão logo o lusco-fusco
tomava forma, a pequena menina com nome de rio pensava na melhor estratégia
para a fuga. Após um momento de distração da família com seu irmão menor, ela
conseguiu chegar até a rua, e com uma destreza incomum para a sua idade não foi
surpreendida por ninguém.
No trajeto até a feira, que
era não era curto, Maguari se cansou, porém seguiu o seu caminho, pensando que
seria recompensada quando chegasse lá pela beleza deslumbrante das bonecas de
porcelana. As ruas encontravam-se lotadas, carros de boi, bicicletas, pessoas,
todos ocupando a mesma estreita rua que dava acesso até a Feira de Vero Peso.
Quando estava prestes
a atingir seu objetivo, a pequenina menina, que já estava com os olhos cobertos
de lágrimas de emoção (e distração), viu passar em sua frente uma enorme
bicicleta, que tinha o dobro de sua altura, e o homem que a conduzia o triplo.
O acidente foi inevitável. A colossal vontade da mocinha em conhecer a Feira
foi adiada, e as bonecas foram embora sem que Maguari pudesse admirá-las.
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Minha injustiçada companheira
Gabriel Both Borella
Fui solicitado pelo editor-chefe do
jornal onde trabalho para escrever a crônica da edição de domingo, mas assim
que recebi essa missão fiquei pensando com meus botões. Será que o editor tem
consciência da responsabilidade que me passou? Será que ele sabe efetivamente o
que é uma crônica, ou indo até mais longe nesse caso. Será que eu sei o que é
uma crônica?
Dizem os especialistas no assunto que
uma crônica é um fato do cotidiano adicionado de um comentário do cronista,
profissional que escreve crônicas, que não é o meu caso, pois sou um jornalista
policial, e não sei de que forma fui escolhido para ser um promissor escritor
de crônicas pelo meu rabugento editor-chefe. No final das contas, preferi não
iniciar uma discussão com ele e fui definitivamente por a mão na massa.
Que fato do cotidiano poderia escolher
para começar minha crônica? Olhei minha mesa, que faz parte do meu cotidiano,
já que estou há 15 anos sem trocá-la. Ao olhar a mesa, vi também minha velha
caneta azul, que ganhei de um amigo em tempos longínquos e que já me
acompanhava há certo tempo também. Resolvi escrever minha crônica sobre ela,
minha velha companheira das várias noites geladas que passo na redação.
Ao começar a escrever, senti-me
arrependido de nunca antes ter escrito sobre ela, já que passamos tanto tempo
juntos e convivemos no mesmo lugar. A pobre caneta nunca foi valorizada como
deveria.
Comecei a crônica não dando os devidos
créditos que ela merecia, apenas escrevi: “A caneta é um instrumento utilizado
para a escrita usando tinta. Varia das mais simples às mais sofisticadas e
elegantes, das de uso comum às profissionais, diferindo também em matéria de
cor”. Fui ainda mais longe: “Sua finalidade é criar um dispositivo que possa
distribuir uma tinta grossa de secagem rápida, sem que ela resseque na própria
caneta”.
Percebi que estava sendo insensível
com a minha querida caneta, apenas dando-lhe dados técnicos. Será que era essa
descrição que ela gostaria de receber? Gastei muito tempo de minha noite, a
qual mal pude dormir, para terminar essa crônica. Ao final dela consegui dar um
pouco de sentimentos a pobre caneta, e acabei terminando a crônica assim:
“Caneta essa que desliza sobre o papel e além de dar emprego a esse pobre jornalista,
também cria, emociona, conta e não se importa de passar quinze anos esquecida
em um canto da mesa, só sendo lembrada para evocar um cotidiano ao qual nunca
pertenceu de fato”.
Raiou o dia, entreguei minha crônica ao editor-chefe
para ser publicada dali a poucos minutos. Ele riu, falou que nunca publicaria a
crônica de uma caneta, que aquilo não tinha sentido algum e que eu estava
ficando amalucado. Por pouco não fui demitido. Saí de sua sala abalado e voltei
ao meu cantinho na redação, percebi que deveria dar mais valor ao cotidiano.
Acabei ficando novamente de frente com a minha desgastada caneta, e constatei
que ela só tinha a mim, e eu só tinha a ela, pobre e injustiçada companheira.
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O
Diplomata
Gabriel Both Borella
Já era noite quando o avião que
trazia Juan de Grijalva aterrissou no aeroporto José Martí na cidade de Havana,
em Cuba. Um funcionário do governo cubano estava a sua espera para levá-lo até
o Museo de la Revolución, onde ficaria hospedado.
Juan de Grijalva era um diplomata
enviado pelo Brasil para tentar resolver o embate entre os dois países, mas a
situação estava intrincada, como descrito em um relatório escrito por ele dois
meses após a sua chegada: “Notou-se o crescente apelo popular cubano pela volta
de Batista. O governo através de discursos inflamados do presidente convoca a
população a apoiá-lo”.
Esse foi o primeiro de muitos
relatórios do diplomata nos seus dois anos e três meses em Havana. Embora a
situação estivesse em um nível quase caótico, Juan não importava-se muito com
aqueles governos resmungões e chatos e aquele cubano sem importância alguma
para ele, pois já sabia como essa história terminaria.
Grijalva suportava aquelas reuniões
que pareciam ter séculos de duração com certa calma e serenidade, e após a
reunião encerrada preparava outro relatório ao governo brasileiro.
“A reunião do dia 2 de Setembro de
1939 não trouxe muitos avanços à negociação, o governo cubano não aceita
nenhuma das condições ofertadas pelo nosso governo, e quer a volta imediata do
refugiado”.
Ser o intermediário entre os dois
governos estava enfraquecendo a já frágil saúde de Juan de Grijalva, que
aparentava ter mais de meio século de existência, cabelos empoeirados, visão
baça e andar lento.
No final do primeiro ano de sua
estadia em Havana, já exausto das negociações, Juan escreve uma carta ao
governo brasileiro, pedindo para passar o Natal e o Ano Novo em terras
tupiniquins. O governo acatou seu pedido através do envio de outra carta a
Juan.
O velho e cansado diplomata chegou
ao Brasil no dia 21de dezembro de 1939, e antes de ir para sua casa (também
velha), fez uma pausa no Palácio do Catete para balbuciar algumas considerações
sobre a situação que intermediava.
Passada a entediante reunião no Rio
de Janeiro, Juan segue para o local onde está o refugiado. Ele já havia
programado esta visita há tempos. Chegando no local, Grijalva segue para o
quarto onde está hospedado Batista, fala em seu ouvido algumas palavras em um
idioma incompreensível, entrega-lhe um saquinho de papel bem fechado, uma
carta, e parte para suas férias.
Em meados de janeiro, o Diplomata
volta para Cuba e retoma as inacabáveis negociações e os extensos e
burocráticos relatórios. Cada um deles demorava cerva de 20 dias para chegar ao
Brasil, e passava pelas mãos de muita gente até cair nas mãos gordas de Osvaldo
Aranha, Ministro das Relações Exteriores do Brasil.
O ano transcorreu quieto e calmo, com
os ânimos mais apaziguados, porém com pouco avanço nas negociações. Somente em
novembro, 5 meses antes do retorno triunfal de Juan de Grijalva ao Brasil, um
fato relevante acontece, o encontro do presidente dos dois países em Mariel,
cidade a poucos quilômetros de Havana.
O Diplomata, que participara do
encontro, acompanhou tudo com seu olhar entediado, quase sonolento. O encontro
serviu apenas para diminuir o estoque de charutos do presidente cubano, que
apresentava sua aparência glutona, uma cabeça de formato lunar, e um bigode que
alcançava ambas as têmporas.
Quando as negociações pareciam estar
perto do fim, o governo brasileiro enviou uma carta ao diplomata, que chegou
somente 23 dias após ser escrita. A carta tinha a seguinte mensagem: “Volte
imediatamente ao Brasil, o refugiado está morto”.
Essa carta foi parar propositalmente
em mãos cubanas, e a revolta se instaurou em todo o país.
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